quinta-feira, 22 de maio de 2008

Mil sertões em Juraci Dórea


Minha terra não é moça,
Não veste vestido de renda,
Não tem argola na orelha.
Minha terra é menino,
É um vaqueirinho
Vestido de couro.

Eurico Alves – 1928

Em casa de Juraci viramos terracota. Uma parcimônia para virginianos. Nossos gestos ficam elegantes e logo parecemos recém-saídos de gravuras, iluminados de ações delicadas. Fluem entre as cenas do seu atelier cobrinhas-lagartos, peixes e musas fugidias. Outras peças mostram vaqueiros, cantadores, lembranças de cordéis. Na mesa vinho bom, queijos e pães fartos sem, contudo, fazer-nos esquecidos do maravilhoso salmão e bacalhau postos, logo depois, no mar daquela mesa. A prenda é da mulher: a Selma. O fundo da casa, átrio fastuoso, fica de frente ao Atelier do ilustrador. E estamos assentados eu, uma sereia e Juraci com mais alguns convivas, bons falantes por sinal – quando falavam. Os sabores dividiam ações e calavam a voz.

Feira de Santana fica a cento e poucos quilômetros de Salvador e recebe esse nome porque a cidade cresceu de uma antiga encruzilhada de rotas comerciais. Mas ainda é lugar de escambos alternativos ou clandestinos. Antes de se chegar a Salvador, fora algumas trilhas perdidas por aí, chega-se primeiro à Feira de quinhentos e pouco mil habitantes. Juraci Dórea vem da Feira de 1944 e já viu muita coisa mudar nessa vida. É artista de décadas com um acervo raro e o passaporte de diversas nações que receberam suas obras em exposições e bienais, principalmente no Velho Mundo. O que fica renitente, desde aquela data, são os humildes vaqueiros e as lamparinas de óleo das gravuras. Eleva a estética das Xilogravuras reproduzindo outro canal de desenho, às vezes mais asseado e caricato. Mas lembra a Xilo. Pra mim uma ars nova de sinestesias: o cheiro das coisas apenas olhando. Fumaça de lamparina, o couro quando molha, aroma da caatinga e o ar quente reproduzindo cores do céu. Mesmo apesar da peça ser em branco e preto. Às vezes tem outra cor ou é colorida.

Meu primeiro contato com a obra de Juraci veio em 2004 pelo caderno-livro do LP “O Auto da Catingueira” de Elomar Figueira Mello, de 1984. Juraci autora as imagens da capa. Em seguida, a convite de Simone Guerreiro, fiz a direção de arte do seu livro sobre o cantador Elomar utilizando algumas de suas ilustrações. A peça caiu muito bem na crítica de todos os autores envolvidos, o que foi suficiente. Não é, de certa forma, difícil produzir algo bom possuindo esses dois cavaleiros: Juraci e Elomar. Dois Don Quijotes figurados no campo branco[1] do Brasil. E Simone Guerreiro arremata o texto.

Amontoados de telas e uma grande mesa sustentam várias coisas no seu atelier. Livros, cadernos, pinturas, canetas e em outra bancada o computador. A máquina organiza sua vida laboriosa com as planilhas de quadros e respectivos preços. Algo importante para seu marketing mas a vida de suas telas não parece nada com isso. É pobre, simples, festeira e generosa. Juraci é uma generosidade ambulante. Oferta o que é possível, e o que não é, fica justamente por conta do pão de cada dia, da reforma da casa, das criaturas filhos que tem que prover. Ah se a vida fosse de graça, Juraci seria pão e circo. Ganhei de presente, por sinal, neste dia, dois livros. Um sobre ele – "Memória em Movimento. O sertão na Arte de Juraci Dórea" - e outro sobre um poeta de Feira de Santa – "A Poesia de Eurico Alves" – ambos de Rita Olivieri-Godet . Quando recitei “Minha Terra”, era tão bonito que, fiquei sem graça. Foi logo depois da chuva quando migramos para dentro do Atelier. Eurico está memorizado por esta escritora que permeia o mundo mexendo entre mortos e vivos, mas todos próximos.

Aguardo novos ares e encontros, da próxima vez com o agrado de canções. É algo que não dá para separar daquela ambiência dos tijolinhos aparentes da casa de Juraci do frescor da fenda entre o fundo da casa e o atelier e o calor humano de sua tenda artística. É algo bem sabido pelo próprio Elomar, Xangai, Simone e tantos outros. Mas levarei violão e canções, como quem leva tinta e pincel pra fazer umas telas por lá. Lá no fundo daqueles mil sertões, que é a casa de Juraci Dórea.

[1] Caatinga, sertão.

4 comentários:

adriana meira* disse...

Vixe como escreve lindo!
Onde posso ver mais gravuras de juraci?
Beijos

Cris Teles disse...

O primeiro contato que tive com as gravuras de Juraci Dórea foi sem sabê-lo. Estava imersa em um novo contexto, antes não imaginado. O ambiente de fato sinestésico ficava no povoado da Gameleira. Extasiante. Lá fui apresentada a um dos Don Quijotes do campo branco – Elomar Figueira. Uma honra. E através da obra de Simone – Tramas do Sagrado – sob direção de arte de Duda, conheci as gravuras de Juraci. Lembro de achar tão puro e ao mesmo tempo tão gritante. Tão molhado e fértil, mas também tão sertão. Suas gravuras trazem à cabeça as pinturas do antigo Egito, com suas leis de frontalidade e tudo mais. E se lá as ilustrações tinham caráter de imortalizar aqueles ali representados, na obra de Juraci não é diferente. Imortaliza o sertão e seus signos materiais ou não. Usando a estética bidimensional nos remete a terceira ou uma quarta dimensão e nos expurga. Um prazer melhor conhecê-lo.

Duda Bastos disse...

Adri, as gravuras de Juraci ficam espalhadas por aí. Na internet elas sobrevoam sites de culturas artísiticas, digita lá no google "Juraci Dórea" que deve aparecer um montão de coisas. Mas bom mesmo é visitar o atelier na passagem por Feira.

Anônimo disse...

Vi hoje o seu blog. Esperei um momento mais apropriado. O texto está muito bom. É coisa de poeta mesmo. Ficamos emocionados (eu e Selma). Quando surgir alguma oportunidade, se você permitir é claro, pretendo usar um trecho em catálogo de exposição. Selma promete novos encontros. Teremos canções, bom vinho e versos de Eurico Alves. E noite de lua, naturalmente. O blog de Lenilda (Leni) é o seguinte: http://mariefleur.zip.net/arch.

Abraço de Juraci e Selma.