sábado, 3 de maio de 2008

Macchina Fame Famulus


“(...) faça rizoma e não raiz, nunca plante! Não semeie, pique! Não seja nem uno nem múltiplo, seja multiplicidades! Faça linha e nunca o ponto! A velocidade transforma o ponto em linha! Seja rápido, mesmo parado! Linha de chance, jogo de cintura, linha de fuga. Nunca suscite um General em você! Nunca idéias justas, justo uma idéia (Godard). Tenha idéias curtas. Faça mapas, nunca fotos nem desenhos (...)” Gilles Deleuze em Mil Platôs vol. 1

Em 2006 certa dupla de empresários - Gustavo Kaufmann e Carlos Marinho (Caco) - chegaram ao antigo negócio em propaganda do qual era sócio: uma agência de publicidade. Vieram atrás de novos retratos para o restaurante (Steak House) que iriam empreender. Queriam algo aberto, inovador, amplificado, diferente. Desafiante face ao experimentalismo e tempo dispensados para desenvolver projetos como esses. Após minha sociedade desfeita continuaram sendo meus clientes. Hoje, trabalhamos construindo conceitos que são mais que idéias: são ideologias gastronômicas. O resultado inicial foi uma coleção artística de 5 painéis para o DOC que entitulei: Macchina Fame Famulus . A seguir a descrição que apresenta as peças:


“A coleção dos painéis do DOC são visagens – visões e imagens – de um mundo fantástico, surreal, cômico, gastronômico, visitado, inicialmente, apenas pelo imaginário. Mas trouxe do imaginário um apanágio real, prático, visual. É só conferir na passagem ou gastando uns segundos diante deles para compreender que estão ali, apesar de fixo, móveis. Apesar de retos: profundos, tridimensionais. A coleção Macchina Fame Famulus – um pedantismo trazido do latim, para insinuar a vaidade charmosa das palavras que preenchem a boca – ou seja, Servos da Fome e da Máquina -, propõe a aproximação, a tradução gastronômica do DOC para o estético. É puro deslumbre para os olhos, fantasia para o tempo, para a freqüência ao maravilhoso lugar preenchido pelo bem estar e finos sabores, aliciado ainda pela gravidade e rusticidade de culinária sem igual. Um cardápio exclusivos de pratos especiais e sobremesas luxuriantes. Bom apetite visual e gastronômico.”


A edição n° 270 de 2008 de Casa Vogue tem uma reportagem que publica esse trabalho e expõe suas principais aplicações sob a arquitetura de Márcia Meccia[1], elevando ainda mais o concept design da casa. A assessora de imprensa do DOC, Adriana Nogueira, recentemente me entrevistou para uma publicação que ainda não posso divulgar. Mas sob autorização de Carlos Marinho, Chef e sócio do DOC relato na íntegra a entrevista:


Adriana Nogueira: Como chegou até o DOC?
O DOC chegou até mim. Eles vieram por causa de um trabalho anterior que desenvolvi para a Forneria Quintano, de quem são amigos.

AN: Como foi construir o conceito da comunicação?
Foi denso. Um experiência de descosturas sobre coisas pré-estabelecidas. Na verdade não há nada a comunicar. Não existe uma militância pré-estabelecida para propagar idéias. É sempre a sensação, a experiência visual a partir de elementos que tem a ver com a Steak House acrescentado àqueles que reproduzem imagens de cenas e coisas cotidianas. Foi divertido também porque o conceito é muito a imagem do que os donos pensam sobre seu negócio, é um jeito de antecipar o taste, os aromas, e os designs dos pratos. Em grande parte eles são muito responsáveis pela empreitada das peças pois tiveram a ousadia de acreditar e aprovar as idéias.


AN: Com quais elementos teve que romper e que outros agregou?
A ruptura maior foi com as idéias consolidadas sobre os aspectos estéticos da gastronomia. Os empresários dessa área são muito inclinados a investirem apenas na imagem dos itens do cardápio e terminam colocando na parede os quadros dos seus pratos principais ou mais bonitos. É uma visão essencialista, óbvia. Não encanta, não provoca e às vezes sugestiona um ou outro freguês. Mas não acrescenta ou possibilita uma postura identitária, uma qualidade estética ao ambiente. Não é uma foto de comida que vai dizer que esse ou aquele ambiente representa valores, conceitos, formas de pensar, agir, produzir e etc. Os donos são jovens empresários e um deles é Chef, um artista dentro e fora da cozinha. Eles sabem o que gostam de ver. Considero que a produção estética que criei é algo que nós, eu e eles, gostaríamos de encontrar se fossemos num lugar como o DOC.


AN: Sua inspiração?
Tantas. O conceito da arte do DOC passeia entre o surrealismo – pertencente em grande parte aos movimentos de vanguarda – e o fashionismo contemporâneo, uma arte mais suja, erótica, retalhada, fusionada. Artistas como Frida Khalo, Pablo Picasso e David Carson se juntam nessa história. Mas acho que são passeios que terminam num estilo pessoal. Tem ainda a inspiração mais importante que é a filosófica. A expressão artística do DOC é repleta de agenciamentos maquínicos, reflete sobre a máquina e a tecnologia que atravessa a vida humana, mesmo enquanto este se alimenta. Na verdade o homem só interrompe a máquina para se alimentar. Mas continua sendo máquina porque já está corrompido, atravessado por esta e não se sabe mais o que é homem ou outra coisa. Dá pra entender? Risos. A isso o filósofo Deleuze chama Devir ou Devenir, que nada mais é do que um “tornar-se” ou “vir a ser” parte daquela outra coisa. Em outro contexto sempre me faço uma pergunta: “qual o propósito desse negócio?”, “Será que é vender comida?”. Cada um pode ter a sua pergunta e resposta e eu tive as minhas: “o DOC não existe apenas para fornecer um cardápio sensacional, ele existe para nos retirar do tédio da televisão”. É uma resposta insana, mas é a que eu vi quando criei o conceito. Sair de casa para ir ao DOC tem que dar mais prazer do que apenas a gastronomia, é um apanhado de circunstâncias que me animam inclusive a voltar. É um chamado ao encontro, ao prazer, ao avesso de toda preguiça.

AN: Como adequar a comunicação visual ao conceito do próprio restaurante, algo novo em Salvador, e ainda atender às expectativas dos sócios?
Acho que tudo que se faz em comunicação visual está muito banalizado na cidade. Tudo agora é chamado de sinalização ou comunicação visual. Se se faz uma placa, um letreiro ou banner chama-se isso de campanha publicitária, de comunicação visual. Eu não faço comunicação visual, eu faço peças artísticas, sem nenhuma necessidade de comunicar algo ou interpretação. E as vezes faço propaganda. Eu trabalho na perspectiva das sensações, é bem diferente, é mais forte, mais vivo, mais rentável para quem contrata. Ganhar impressões é a melhor coisa para peças publicitárias. A opção e desejo de compra sempre está no coração do consumidor. Nos seus afetos. Acho que muitos empresários desse setor ainda não acordaram para isso. Um dia desses eu presenciei uma cena muito interessante, uma pessoa posando ao lado do painel Coffea Crepuscular (Crepúsculo do Café) para tirar foto. Acho que isso disse tudo sobre o que ela achou da casa. Acho que é o arremate da satisfação, depois da boa comida, uma boa lembrança para levar.

AN: O que quis provocar e despertar nos clientes do DOC?
Fulgor, sensualidade, caos, cotidiano, alegria, clandestinidade, poesia, gravidade, suavidade, estesia, vigilância, humorismo, crítica. Mas com certeza já devem ter sentido muita coisa diferente disso.


AN: Sempre teve liberdade de criar assim?
No caso do DOC sim. Em relação a outros trabalhos nem sempre, mas também sempre dei um jeitinho de forçar um pouco a barra e mudar o rumo do processo. Na maioria das vezes consegui, outras não. Mas o tempo as vezes mostra que posso estar certo e daí refazemos os conceitos. Dá pra entender? Outros trabalhos tem uma natureza mais fechada, sem essas possibilidades, pois pertencem a setores mais austeros, corporativos. Mas se tiver uma pessoa aberta do outro lado, tudo muda.


AN: O que mais quiser acrescentar.
Nada mais a declarar. O resto está lá, tem que conferir.


[1] http://www.marciameccia.com.br

Um comentário:

Vinicius Silva disse...

Excelente entrevista. Lembro que você já havia falado um pouco sobre esse projeto que havia feito para o DOC, quando apresentou em sala os trabalhos.

Na primeira que fui ao lugar, eu e meus amigos percebemos o quanto o cardápio era diferente de outros restaurantes com um estilo parecido que tem o DOC. O próprio ambiente segue essa tendência surrealista a qual você se refere e acho importante quando se tenta praticar coisas diferentes e consegue. Primeiro porque foge do comum e, segundo, que possui expressão e significados diferentes, tanto para mim quanto para voce, ou para qualquer pessoa.

Abraços..

Adicionei o link do seu blog no meu, deixando o endereço aqui:

www.sobaminhalente.com