
Philos - do grego Φιλοσοφία: amor, amizade + Furria - do sertanês: festa, sarau. Panorama poético e errante para provocações filosóficas e estéticas. Ensejos críticos cortados pela ética, cultura e arte. No mais limpar com as palavras os dejetos do mundo, sujar com a língua a pureza dos inocentes, cravar nas feridas todos os meus dentes.E daí que eu me sinto? E daí que tu te sentes?
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Fake Show

quinta-feira, 22 de maio de 2008
Mil sertões em Juraci Dórea

Não veste vestido de renda,
Não tem argola na orelha.
Minha terra é menino,
É um vaqueirinho
Vestido de couro.
Eurico Alves – 1928
[1] Caatinga, sertão.
domingo, 11 de maio de 2008
A Deposição do Folclore
Ensejo
Perdoem-me inicialmente pela gramatologia. Esse lagar densificado de termos, esse átrio imenso de falas poéticas, acadêmicas e desestruturadas, território de tantas expressões inventadas, e hora, melhor aproveitadas.
Os estudos culturais tornaram-se alvos de complexos ataques e debates intensos a cerca de conceitos que propagam idéias e defendem causas como se essas fossem tramas religiosas. O que proponho nesse pequeno texto não é isso. Ofereço, pelo contrário, certa dessacralização de termos, retirando da escravidão objetos e assuntos esmagados por determinadas menções e falas populares. Alguns desses conceitos estão enroscados de tal forma nas produções artísticas e em seus autores que a simples menção de si mesmos, ou representação, em relação a esses termos já estabelece um circuito fechado. Dizer-se ator de algo “proveniente de”, “essencial de” ou “pertencente a” traz precipitada territorialização e em seguida restrições desnecessárias.
Por exemplo, muito se fala em música regional. O inscrito “Regional” é um território complexo, ficcioso, nas palavras do sociólogo Pierre Bourdier, um espaço destinado a uma falcatrua dos espaços. A etimologia da palavra região (regio), tal como a descreve Emile Benveniste[1], conduz a princípio da divisão, ato mágico, quer dizer, propriamente social, de diacrisis que introduz por decreto uma descontinuidade decisória na continuidade natural. Dessa forma, é possível retratar até uma expressão artística urbana como Regional. Tal definição de música Regional tornou-se lugar comum no ambiente das mídias. É quase uma luta entre identidades étnicas ou propriedades (estigmas ou emblemas) ligadas às origens através do lugar de origem dos sinais duradouros que lhes são correlativos, como sotaque, costumes, gestos, etc. São poderes simbólicos e tentativas de demarcações invisíveis. Mas então o que existe? Apenas expressões artísticas de culturas específicas. Muitas delas tem títulos interessantíssimos, tais como Mangue Beach, Cantoria Nordestina, Nova Cantoria, Música Caipira, etc. Assim como Bossa-nova é Bossa-nova. Daí, em grande parte, o regional é considerado como tudo aquilo que está fora do âmbito dos circuitos dos grandes centros ou cidades e é disponível apenas em mídias alternativas ou em iniciativas de apoios governamentais, como projetos e eventos de patrocínio a culturas artísticas e suas variadas manifestações.
Outro desconforto gira em torno do termo Folclore e tudo que este agrega. São complicados certos conceitos e práticas consideradas como “cultura nacional”, folclore, identidades, música popular, música regional e de raiz na identificação dos artistas e suas culturas artísticas. São todos termos etnocêntricos e desvirtuados da cena viva. Folclore por exemplo é uma invenção reacionária e valorativa. Um dos que mais tentam salvar o termo é Antônio Gramsci (filósofo e comunista) com abordagens fluentes, mas até então, para mim, não reagentes. Diante de tais práticas, não é incomum observar comportamentos etnocêntricos que amplificam o grau da cultura-valor e expõem as expressões artísticas provenientes de ambientes diversos a um nonsense colonial (BHABHA).
O termo "folclore" compreende valores e noções que comprometem elementos importantes da alteridade e que são contraditórios na representação do objeto. Um desses principais problemas está na exotização das culturas. As idéias ou aspectos conceituais do folclore tecem conjunto de valores que servem como cenário para esquisitismos e exotismos, os quais, por sua vez, deixam rastros de falsas evidências sobre aspectos intrínsecos das culturas artísticas, principalmente em estudos que investigam tais manifestações. Segundo Renato Ortiz[2], configura-se em situação incômoda, e se agrava quando se sabe da preferência dos folcloristas pelo pitoresco, no qual os interesses são conduzidos para a dimensão do desconhecido, do bizarro, do curioso – “fantasmas, magias, tradições longínquas, culturas perdidas, tribos primitivas” (ORTIZ). Para o pesquisador, o folclore consiste numa “ciência menor”, que se articula à sombra de ciências legítimas tais como a sociologia, antropologia e história.
Comumente, os pontos de vista folclóricos explorados pelo conjunto social de produções culturais e da mídia atribuem valores e juízos, em grande parte, em detrimento de referências culturais ocidentais e etnocêntricas. Nesse sentido, o folclore define, segundo Canclini, os processos culturais como atividades intelectuais, restritivos a certas elites, em que, a partir de visões iluministas, exaltaram os sentimentos e as formas populares de expressão em oposição ao cosmopolitismo da literatura clássica; evidenciaram as diferenças, o valor do local, em oposição ao desprezo do pensamento clássico pelo “irracional”; trouxeram aos olhares hábitos exóticos de outros povos e de camponeses (CANCLINI). O conjunto desses argumentos termina fazendo do folclore uma disciplina que se generaliza nas expressões subalternas, orientado sob os auspícios do tato colonizador, com padrões imperialistas de enxergar as informações artísticas e culturais dos grupos rotulados como folclóricos. Uma espécie de visão do grande caçador branco sobre os costumes que se mantém quase sempre de acordo com uma tradição. O folclore trabalha segundo a concepção de “grupos de elite” que buscam despertar o povo e iluminá-lo em sua ignorância. Dessa forma, existe algo sistêmico tal como uma máquina que retroalimenta o âmbito ingênuo da cultura popular ou de raiz
O cantador Elomar, por exemplo, está incutido em acervos ou fendas culturais que consideram origens interioranas, rurais – telúricas –, ancestrais, mas não somente. Traz universo próprio, em que se mantêm expressões e costumes sobreviventes de uma memória, mas que se posiciona, na atualidade, ligada a outros movimentos artísticos musicais, temalógicos e à indústria cultural (Elomar comercializa CD´s). Sua obra ocupa lugar específico, constituído por outros artistas - cantadores - atuantes, com características peculiares que se retroalimentam. Seus atributos culturais e artísticos não podem entrar em comparação com outras manifestações, colocando-se à margem, no plano de vítimas daqueles não acolhidos por grupos que digladiam por espaços na mídia. Elomar pertence ao movimento da "Nova" Cantoria e têm articulação com culturas capitalísticas, novas mídias, formas de produção e criação. A diferença é que ele não altera seus ideais. Ele mantém sua produção cultural preferindo vencer limites restritivos da própria indústria cultural e dos fenômenos explosivos da cultura artística de massa. Enquanto isso, nos bastidores da cultura, as concepções folclóricas ou popularescas tendem a formar posicionamentos românticos e equivocados a respeito do cenário Elomariano e dos representantes da "Nova" Cantoria, na construção de um resgate do espírito antiquário (ORTIZ) e formulações reacionárias a respeito do sujeito que ali se inscreve.
O povo é “resgatado”, mas não conhecido (CANCLINI).
A intenção de divulgar esses ensaios atende a um campo dialogal desse tempo em que algumas comunidades insistem em roteirizar a dinâmica cultural dos povos e suas manifestações artísticas. Essas estruturas giram de acordo com os regimes periodistas e equivocados das análises culturais, principalmente as jornalísticas. A intenção é estender a conversação e nunca fechar os sistemas, nem possuir a certa razão. Mas sempre elucidar e abrir os campos do jogo, possibilitando outra forma de análise que desconcentra do lugar comum.
Desculpem a imensa verborréia. Amplexos malungos a todos.
[1] Émile Benveniste (1902, Cairo - 1976) foi um lingüista estruturalista francês, conhecido por seus estudos sobre as línguas indo-européias e pela expansão do paradigma lingüístico estabelecido por Ferdinand de Saussure.
[2] http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4781351Y1
sábado, 3 de maio de 2008
Macchina Fame Famulus

O DOC chegou até mim. Eles vieram por causa de um trabalho anterior que desenvolvi para a Forneria Quintano, de quem são amigos.
Foi denso. Um experiência de descosturas sobre coisas pré-estabelecidas. Na verdade não há nada a comunicar. Não existe uma militância pré-estabelecida para propagar idéias. É sempre a sensação, a experiência visual a partir de elementos que tem a ver com a Steak House acrescentado àqueles que reproduzem imagens de cenas e coisas cotidianas. Foi divertido também porque o conceito é muito a imagem do que os donos pensam sobre seu negócio, é um jeito de antecipar o taste, os aromas, e os designs dos pratos. Em grande parte eles são muito responsáveis pela empreitada das peças pois tiveram a ousadia de acreditar e aprovar as idéias.
A ruptura maior foi com as idéias consolidadas sobre os aspectos estéticos da gastronomia. Os empresários dessa área são muito inclinados a investirem apenas na imagem dos itens do cardápio e terminam colocando na parede os quadros dos seus pratos principais ou mais bonitos. É uma visão essencialista, óbvia. Não encanta, não provoca e às vezes sugestiona um ou outro freguês. Mas não acrescenta ou possibilita uma postura identitária, uma qualidade estética ao ambiente. Não é uma foto de comida que vai dizer que esse ou aquele ambiente representa valores, conceitos, formas de pensar, agir, produzir e etc. Os donos são jovens empresários e um deles é Chef, um artista dentro e fora da cozinha. Eles sabem o que gostam de ver. Considero que a produção estética que criei é algo que nós, eu e eles, gostaríamos de encontrar se fossemos num lugar como o DOC.
Tantas. O conceito da arte do DOC passeia entre o surrealismo – pertencente em grande parte aos movimentos de vanguarda – e o fashionismo contemporâneo, uma arte mais suja, erótica, retalhada, fusionada. Artistas como Frida Khalo, Pablo Picasso e David Carson se juntam nessa história. Mas acho que são passeios que terminam num estilo pessoal. Tem ainda a inspiração mais importante que é a filosófica. A expressão artística do DOC é repleta de agenciamentos maquínicos, reflete sobre a máquina e a tecnologia que atravessa a vida humana, mesmo enquanto este se alimenta. Na verdade o homem só interrompe a máquina para se alimentar. Mas continua sendo máquina porque já está corrompido, atravessado por esta e não se sabe mais o que é homem ou outra coisa. Dá pra entender? Risos. A isso o filósofo Deleuze chama Devir ou Devenir, que nada mais é do que um “tornar-se” ou “vir a ser” parte daquela outra coisa. Em outro contexto sempre me faço uma pergunta: “qual o propósito desse negócio?”, “Será que é vender comida?”. Cada um pode ter a sua pergunta e resposta e eu tive as minhas: “o DOC não existe apenas para fornecer um cardápio sensacional, ele existe para nos retirar do tédio da televisão”. É uma resposta insana, mas é a que eu vi quando criei o conceito. Sair de casa para ir ao DOC tem que dar mais prazer do que apenas a gastronomia, é um apanhado de circunstâncias que me animam inclusive a voltar. É um chamado ao encontro, ao prazer, ao avesso de toda preguiça.
Acho que tudo que se faz em comunicação visual está muito banalizado na cidade. Tudo agora é chamado de sinalização ou comunicação visual. Se se faz uma placa, um letreiro ou banner chama-se isso de campanha publicitária, de comunicação visual. Eu não faço comunicação visual, eu faço peças artísticas, sem nenhuma necessidade de comunicar algo ou interpretação. E as vezes faço propaganda. Eu trabalho na perspectiva das sensações, é bem diferente, é mais forte, mais vivo, mais rentável para quem contrata. Ganhar impressões é a melhor coisa para peças publicitárias. A opção e desejo de compra sempre está no coração do consumidor. Nos seus afetos. Acho que muitos empresários desse setor ainda não acordaram para isso. Um dia desses eu presenciei uma cena muito interessante, uma pessoa posando ao lado do painel Coffea Crepuscular (Crepúsculo do Café) para tirar foto. Acho que isso disse tudo sobre o que ela achou da casa. Acho que é o arremate da satisfação, depois da boa comida, uma boa lembrança para levar.
Fulgor, sensualidade, caos, cotidiano, alegria, clandestinidade, poesia, gravidade, suavidade, estesia, vigilância, humorismo, crítica. Mas com certeza já devem ter sentido muita coisa diferente disso.
No caso do DOC sim. Em relação a outros trabalhos nem sempre, mas também sempre dei um jeitinho de forçar um pouco a barra e mudar o rumo do processo. Na maioria das vezes consegui, outras não. Mas o tempo as vezes mostra que posso estar certo e daí refazemos os conceitos. Dá pra entender? Outros trabalhos tem uma natureza mais fechada, sem essas possibilidades, pois pertencem a setores mais austeros, corporativos. Mas se tiver uma pessoa aberta do outro lado, tudo muda.
Nada mais a declarar. O resto está lá, tem que conferir.
[1] http://www.marciameccia.com.br