domingo, 14 de junho de 2009

Autotradições. A formação das brevidades ou o desmonte das tradições.



Carpe diem quam minimum credula postero
dum loquimur, fugerit invida
aetas* Horácio (65 - 8 AC)

Aos 31 de dezembro de 2008 às dez horas respingantes sobre o belvedere da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões, Ouro Preto, Minas Gerais.

Tardiamente descobri o desarme do pensamento comum. A defasagem dos meus intentos mostram o quanto demorei para me desamparar do ancestral, da operação afetiva tradicional e moral, dos títulos dos bons costumes. O território descrito em que se arrastava a percepção estava sob a égide de edificações quadradas, casais pseudo-elegantes, máquinas desejantes reprimidas, juízos nauseantes, gestos mumificados e obediências servis. Em parte devido a formação do grande sistema social familiar e educacional que negocia o medo através da regulação de uma forma eficiente de comportamento. Legaliza orientações morais para uma boa conduta em oposição à livre conduta. A livre conduta percorre a linha atenuante do desafio, da inconstância e até da desordem. Daí o seu temor e perigo. Mas esta linha de fora é um abrigo de autonomia e domínio. É no livre agir espreitando o discurso de respostas e sensações autóctones que viceja a pessoalidade, o singular, o "próprio de". O desarme da bomba de Formação Tradicional - ou também Educação Tradicional - pode alimentar um novo percurso para a vocação humana do livre pensamento e abreviação livre daquilo que chamo autotradição.

Primeiramente proponho a exibição do discurso da brevidade. Tudo passa ao tempo que se passa. Toda demora após o fato abandona a noção exata de tempo. O que se passou pode ser percebido apenas no "enquanto" permitindo assim à memória ter alguma reflexão dos instantes anteriores. Daí o fato de algo do passado provocar sensações mas exatamente não permitir atuações físicas no presente. Dessa forma, o valor do vivenciado carrega reflexos e atos, mas não possibilidades materiais. O instants é o real, material ou definido. A problemática do definitivo se monta em toda e qualquer previsão para aspectos congelantes. A brevidade surge como a possibilidade do inesperado. A marcação da brevidade permite o apontamento do transir, da modificação, do deslocamento. Convoca a não-fixação, a mudança, a desestabilização dos paradigmas. O sentido da brevidade se opõe a marcação por hora, fajuta, da fixação, da constância, do imutável. Mas não pelo desprezo ao justamente fixo, constante ou imutável, mas por todo sentido de efemeridade e insegurança que esses elementos possuem no mundo real, material. Descola-se então da temporalidade todo senso de definitivo para o espaçamento da brevidade, uma vez que, a tradição se fixa ao tempo, à conservação inevitável e impede a diferenciação mundana, profícua e capaz ao ser. Com isso é possível a ação do desfalecimento das tradições em oposição à morte das tradições. Matar a linha de conduta moral e performativa dos costumes paradoxais e realizar a circunstância do duplo relativo à construção da autotradição, do outro lado, da idealização da pessoalidade sentida e explorada pelo exalar das próprias idéias, sensações, gostos, percepção de mundo, moral, etc. Processos reavivados desconformes aos símbolos e valores distorcidos, atuantes em grande parte nas religiões ou regimes familiares patriarcais, comunidades saudosistas, grupos titulares e autoridades civis. Uma espécie velada de Fascismo (regime totalitarista que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais).

Em segundo, descrevo a seguir, uma breve resolução com aspectos práticos para a autotradição e liberação da inconformidade:

1° Ficar disponível a uma outra obra sobre a moral tradicional. As sensações de alegrias próprias não podem mais ser regidas por alternativas de controle ou sistemas depressivos sociais comuns. Dessa forma ambientes austeros e disciplinares estão disponíveis para regulação de sociopatas e não da natureza comum. Exibições posturais de acordo com a estética do enrijecimento - doutores, juízes, militares, políticos, religiosos - revelam o grau máximo de discurso fático e falência dos últimos órgãos sociais da moralidade.

2° Deposição dos domingos e feriados e toda resolução do calendário que conformam o comportamento. A existência simbólica desses dias não atendem aos horizontes de expectativas passionais. Dias fixados para símbolos e idéias que induzem a processos de subjetivação massificadores. A culpabilidade do ócio na segunda-feira é para alguns o tormento e fator desregulador. O plano capital do comércio induziu o humano a um calendário exigente e material - reificador. Da mesma forma os dias festivos do calendário que servem para múltiplos fins inclusive regular a decisão e obrigação de afazeres e programação das emoções.

3° A elegância despistadora da atenção. O aspecto dialógico da desculpa e a manutenção da não obrigação. O ser vivido na medida de sua própria medida. Nunca na expectativa arrogante do controle, da desesperança. Sempre uma forma nova, uma abertura, outro ângulo, sempre o seu. Não o dos tutores, não o dos sacertodes, não os da lei, não os dos pais, não os dos formadores de opinião, mas os do auto, do próprio, da pele. Nunca a conveniência e o esforço para a paixão e sempre a fuga da censura de utilidade fria e calculista. Nunca mais aos "ensinados a mandar outras vezes a obedecer" e por tudo o autoensino para as escolhas, os autoinstantes e os autolimites.

A rebeldia em multifacialidade, a intransigência ao paradoxo, o desprezo pelo comportamental e enfim elaboração do próprio discurso. Ou tal qual Frederico: "domínio sobre o seu pró e o seu contra, e aprender a mostrá-los e novamente guardá-los de acordo com seus fins (...)".

* Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã
Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento
está fugindo de nós.

5 comentários:

Jamerson Silva disse...

Muito interessante esse seu ensaio. É quase um tratado para a uma vida mais útil, intensa e relevante. Livre dos engessamentos comuns. Mas não posso me atrever a chamar seu texto de "tratado", pois, assim, ele se tornaria uma regra, um metódo. E é justamente isso que ele também propõe destruir.

Viva as possibilidades!

Grande abraço!

Gabriela Guimarães disse...

adoro suas genialidades. são carregadas de você.

eduardo disse...

Olá! Quem é você? De onde? Não constam informações no blog... Notei que conhece o pessoal do usina. Gostei do teor que, não obstante a densidade em volume de informação, tem uma leitura leve.

Aguardo retorno com as informações.

Sucesso!

Ivana disse...

A mente pede pausa, não posso falar sobre o agora: eu que transito,
Pra quê mais? Desprender-se ou ater-se ao que não existe? O tempo.

Gosto do tom de desconstrução, gosto do gosto do texto que propõe... e tive que parar , a respiração para saber se o que eu lia em certas horas era sobre o sim ou o não.
A escolha própria,
gosto do teu tom.

Bjo

Hugo Gonçalves disse...

Duda, parabéns pelos seus brilhantes textos! Espero que vc continue a escrevê-los neste blog!!!