segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Cantador que trama o verso*.

* mantido o tom acadêmico


Sem nenhuma alusão ao Oriente e intensa vocação pelo estandarte da poesia cantada, vive em nossas searas baianas, um trovador desgarrado das tropas antigas, da fenda do tempo, dos salões de reis castelares, chama-se Xangai.

O nome provém de uma sorveteria, datada de 1968, reconhecida em Nanuque, cidade da Zona da Mata mineira, que pertenceu ao pai do cantador, onde trabalhou aos 18 anos de idade. Assume a sorveteria – que possuía este nome – e, segundo conta, desenvolve um atendimento diferenciado cujo recurso de marketing é a própria figuração carismática de sua atividade no estabelecimento. Este fato possibilita que Eugenio seja referência direta da sorveteria, ou vice-versa, e então, passa a ser conhecido como Xangai. Apesar da sorveteria como negócio, não reside ali a principal inclinação profissional da família. Do pai Jany, sanfoneiro, “um bom tocador de oito baixos – sanfona Pé-de-bode -”, como relata o cantador, e do avô Avelino – exímio sanfoneiro da região Conquistense – obtém grande parte das influências musicais. É oriundo de um lugar sertano, remanescente do “Córrego do Jundiá”, região próxima à Vitória da Conquista que fica 14 léguas entre Itapebi e Potiraguá na região conhecida como Vale do Jequitinhonha.

“Eu sou cantador, canto minha circunstância, minha realidade. Eu sou um vaqueiro cantador, eu sou um pastor”.


Pertence, portanto, a linhagem de cantadores, logo, à primeira geração da Nova Cantoria. Esse conjunto é formado pelos novos cantadores: Vital Farias, Juraildes da Cruz, Elomar, Dércio Marques, Hélio Contreiras, Augusto Jatobá, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, João Ba, Dorothy Marques, Maciel Mello dentre muitos outros, atuantes desde o final da década de sessenta. Da Cantoria Nordestina, Xangai mantém certa proximidade, em parte pelo movimento apresentar elementos performáticos que incitam à velocidade de articulação com as palavras e pela rapidez de raciocínio, na improvisação. Embora a Bahia não possua tradição na Cantoria Nordestina, Xangai colhe referências de momentos, considerados por ele, como importantes para sua trajetória. São circunstâncias que lhe possibilitam a convivência com renomados cantadores e repentistas, a exemplo de: Lourival Batista, Octacílio Batista, Manuel Xudu, Mané Serradô, Moacir Laurentino, Diniz Vitorino, Pinto do Monteiro e Ivanildo Vila Nova, este último parceiro de Xangai nas canções: “Galope à Beira Mar Soletrado” e “Natureza”.

Xangai é inclinado a congregações artísticas: é um apologista de cantadores. Tal posicionamento é uma das características intrínsecas ao movimento da Nova Cantoria. Possui carisma para agregar cantadores, poetas e instrumentistas dos variados gêneros em espetáculos e gravações. Da música pantaneira: Almir Sater e Renato Teixeira, até cantadores de coco, como Jacinto Silva – falecido em 2006. É um poeta-cantador que incentiva a movimentação artística e social da Nova Cantoria, proporcionando encontros e produções artísticas. Forma, atualmente, uma teia preenchida por profissionais de diversos setores que engendram ações culturais e artísticas na Nova Cantoria: comunicadores, produtores, publicitários, artistas plásticos, poetas, escritores, jornalistas, empresários e músicos.
A Nova Cantoria de Xangai apesar das necessidades e projetos capitalísticos, possui um ideal humanista peculiar. Tal fato constitui-se não só como propriedade da Nova Cantoria, mas como elemento vivo dos seus espetáculos e atores. Com a participação dos “companheiros” nas apresentações dos cantadores ganham ampla função espacial, tecendo imaginários e parecem corresponder aos anseios de seus atores na formação “da grande comunidade”.

Tenho grandes compadres, grandes amores, meus amores poetas. Homens. [...] Renato Teixeira fez uma música para eu cantar. Acho ela muito bonita. Muito preciosa. Chama-se “Pequenina”

De Hélio Contreiras, Xangai interpreta “Estampas Eucalol” – “Hélio Contreiras que me deu esse presente, e de Jatobá, “Matança”. Estas canções inauguram o reconhecimento público do cantador. Durante sua apresentação sempre menciona os compositores de algumas das canções que interpreta: Essa eu fiz com Capinam – referindo-se à canção “Que é que tu tem canário”; “Maciel Melo [...] fez uma canção para os meus dois filhos e me deu esse texto pra eu cantar”, a música: “João e Duvê”.

Em 1973 transfere-se para o Rio de Janeiro com o objetivo de estudar Economia, ingressa na Universidade, porém a abandona pouco depois para se dedicar à vida artística. Conhece, a partir de então, vários artistas, dentre eles, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Alceu Valença, Antônio Carlos e Jocafi e muitos outros. Chega a trabalhar compondo trilhas para filmes como “Morte e Vida Severina”, de 1977, dirigido por Zelito Viana. E é no Rio de Janeiro que sua carreira como novo cantador se afirma. Principalmente quando ganha o prêmio Chiquinha Gonzaga de 1982, pelo LP independente “Qué qui tu tem canário?”. Sendo assim, essa trajetória ganhará marcação decisiva a partir do reencontro com Elomar no período preparatório para a gravação do “Auto da Catingueira”, em 1983. Xangai, desse momento em diante, constitui-se como um dos mais profícuos intérpretes de Elomar. Em Xangai, por sua vez, o próprio reconhece um cantador em pleno acordo com o texto e a disposição melódica das suas composições:

Assim é a fala de Elomar sobre o cantador: "Xangai, um cantor, um artista, um menestrel, um dos maiores poucos gatos pingados e tresloucados sonhadores-de-mãos-sangrentas-contrapontas-afiadas inimigas. Remanescentes que teima guardar a moribunda alma desta terra. Que também vai se atropelando contra a multidão de astros constelados que fulgurantes espargem luz negra dos céus dos que buscam a luz. Lá vai ele recalcitrante e contumás cavaleiro, perdulário da bem querência que deixa a índole dissoluta de um pobre povo que habita o espaço rico de uma pátria que ainda não nasceu [...]".

Xangai é um cantador de poderes rítmicos na canção. Além disso, possui trabalho vocal, de acordo com potenciais expressivos dos fonemas. Tal representação é reconhecida através de um jogo que executa entre a intensidade dos sons, nitidez do vocabulário que interpreta e o tempo. Desenvolve, assim, canções cujos textos poéticos possuem valor expressivo em função da articulação entre o ritmo e a pronúncia. As modalidades das canções, algumas delas, são de difícil execução. É o caso dos cocos, principalmente os “cocos trava-língua”, cuja repetição das sílabas semelhantes funciona como realce. A função da repetição é importante, não apenas por chamar atenção sobre o texto, nem pela natureza simbólica e onomatopéica, mas pelo realce de determinadas palavras. Tais recursos são melhor compreendidos na visualização do texto:

Olha lá, cantadô, olha lá
É bonito ver um gago grego gaguejar
Olha lá, cantadô, olha lá
É bonito ver um gago grego gaguejar
O gago grego quando vai falar gagueja
É uma peleja ver o gago grego gaguejar
Ele diz ta-ta, ta,ta,ta chegando a hora
O gago afobado chora porque não pode falar
(De Jacinto Silva interpretado por Xangai)

Xangai tem uma performance matemática na canção. Atua de modo eficaz na interpretação de certas músicas que exigem respiração adequada para legibilidade do texto e manutenção rítmica, como é o caso dos cocos sincopados. Ele afirma: “eu tenho um metrônomo dentro de mim [...] eu canto com a ‘arritmética’, e com a ‘arritmética’, eu canto o “diafragmático”. Tais músicas, que apresentam dificuldades poéticas, são chamados de “versos de pé quebrado”, que significam, humoristicamente, de acordo com Xangai: “tirar um verso de onde não tem e colocar onde não cabe”. Da mesma forma que estas canções exigem recursos vocais, interessam ao desempenho no instrumento, no caso de Xangai, o violão. Desenvolveu técnica própria no instrumento e o executa com distinta expressividade performática. Este feito produziu, um formato próprio no toque do instrumento, o modo de Xangai tocar, segundo Elomar é o “xangaliano”, e o intitula de: “Samba de Bico Roçaliano Impinicado de Sansão no Catado Miúdo Acebolado”.

Outra trama evidente na performance, poética e musicalidade de Xangai é a sua ligação com a União do Vegetal (UDV ). A UDV é um agrupamento religioso de fins espirituais que tem por conveniência práticas específicas, dentre as quais: valorar palavras de acordo com o significado metafísico embutido nestas, ou seja, para eles as palavras carregam superstições, noções espirituais e poderes de acordo com a idéia representada. Sendo assim, Xangai modifica algumas situações poéticas em que o verso está preenchido por palavras de conotação inadequada, segundo os preceitos da UDV. Nesse sentido, algumas composições que chegam ao artista podem sofrer transformações em virtude dessas crenças. Em outra situação, o verso também fica disponível a sua engenhosidade haja vista buscar melhor adequá-lo para, de acordo com visões próprias, empreender outro contexto para o verso. A prática da UDV busca reposicionamento de palavras, as quais, em certo sentido, procuram um sinônimo adequado transformando o plano energético incutido na significação. A exemplo disso tem-se a palavra último que deve ser substituída por derradeiro, pois derradeiro significa aquilo que não termina, e, se coloca como algo que pode vir além. Último pode atrair sensações e realidades indesejáveis para quem a proclama.

Esses aspectos singulares fazem de Xangai um poeta-cantador atento a certas minúcias e cuidados com o próprio aspecto artístico. É um cantador de múltiplas delicadezas, desde as vestimentas, adornadas em detalhes que perpassam bordados, coletes, cintos e acessórios de couro e tecido, sapatos e botas elegantes, chapéu, unhas sempre bem feitas e barba retocada, até utensílios da prática artística: instrumentos que adornam sua performance, violões bonitos, de qualidade sonora, com roseiras finamente desenhadas e madeiras nobres. Em seus bolsos, coisas aromáticas: rapés, óleos mentolados, perfumes. Em prosa, um cantador com um discurso pausado, levemente insinuado em fala melódica, quase cantando ou recitando seus argumentos. No dedo, um anel de estrela, como referência direta ao Centro da UDV que freqüenta, o Estrela da Manhã. Tece, prazerosamente, o ofício de cantador e contador de histórias, ofertando suas síncopes vocais, agregando as pessoas a participarem, com ele, das canções propostas. Na roda de cantoria atua como maestro, organizando os “ataques” dos violeiros e medindo o volume dos instrumentos para harmonização. No palco, exerce pleno controle sobre o texto do repertório, deixando legível, mesmo as canções linguisticamente complexas, capturando e seduzindo as audiências através da performance configurada em humorismo e alegria.
Ê cavalêro.



3 comentários:

Raiara Az disse...

Duda... grande professor, grande filosófo, grande ser humano...
Sou feliz em ter conheido você.

Suas palavras soam como os sinos das igrejas ao meio-dia que Chamam os fiéis para adentrarem a casa do senhor...

É bom vir aqui....


Grande abraço!

Jamile Marcellino disse...

Ei Duda,
finalmente to aqui
dando uma olhada..


(se nao lembra,
sou sua aluna
da Unijorge 3 semestre.)

Hheheh

Anônimo disse...

Comentários vãos... se perdem no vazio das opiniões superficiais. Sem mais verdades para analisarem textos bons, limitam-se apenas em tecer elogios ao desconhecido Duda ou sinalizarem uma breve passagem em seu blog. ai ai ai
Brasil decadentes de mentes anãs.