“O amor é um movimento de contra si (...) vai de encontro à vontade choramingosa de ser amado, que nos conduz, todos, ao psicanalista.”
Gilles Deleuze
Existem razões para ter cuidado quando se pensa o que é o amor. Tido como sentimento, esta ação/sensação humana, pode revestir-se de uma faceta para justificar certa mobilização em prol de afetos e sensações luxuriantes. De fato, o amor nada tem a ver com delicadezas enfadonhas dos temas periodistas das novelas ou das canções. Embora não se abstenha de atividades da libido. Tais delicadezas podem ser belas e traduzíveis como amor, mas certamente é paixão, algo menos relutante que esse amor, embora, a princípio, muito mais empolgante. Podemos considerar como a paixão romântica.
O amor é outro algo, com toda expansividade dessa outridade. Importa a necessidade que não incomoda e a inexistência de objetividade na busca. Não existe razão concreta pelo desejado nem tão pouco uma dependência ensandecedora pelo suporte do amado.
O ser deseja amor. Mas de que isso trata? Por que alguma necessidade é a busca ou a razão da busca pelo amor?
O amor não é obviamente amor como conhecido por aí. Amor é amar na partida contínua pela outridade dos seres e todo seu entorno. O amor não é simplesmente ser amado. Não há solidão em amar, assim como não há tristeza. O amor que dói não é amor. É outra coisa, talvez uma circunstância sofrida em vista de sensações perdidas, em grande parte despertadas pelo desejo humano de saciar sua margem de prazer. A isso se chama definitivamente paixão. Larossa Bondía inclui que na paixão se dá “uma tensão entre liberdade e escravidão (...) uma tensão entre prazer e dor, entre felicidade e sofrimento, no sentido de que o sujeito apaixonado encontra sua felicidade ou ao menos o cumprimento de seu destino no padecimento que sua paixão lhe proporciona”. É importante ressaltar que o autor se refere nesse instante a experiência com o amor, algo que a paixão, em seu caráter essencial não proporciona. Em grande parte pela absoluta falta de tempo, em que se faz necessário o desenrolar de uma experiência, já que toda paixão se faz instantâneamente.
Não há solidão em amar, assim como não há tristeza. Parece que ao amar o desejo pelo ser amado é reconstruído e não há nenhuma perda ou vazio. A paixão é o prejuízo de quem se escraviza à necessidade contínua por recebê-la. Tristezas nascem pela ausência do amor. A liberação desenfreada da condição do amor é a propriedade mais humana que existe, depois talvez se posicionem ódio, raiva, rancor, mágoa e etc. Embora, a mola mestra seja a dor e não o amor a mover o mundo humano. Mas isso é outro assunto.
Amor implica na valorização da existência em seus aspectos de humorismo e do bem-estar (felicidade e paz). É o projeto de ações interiores em direção as expectativas desenfreadas sobre o bem. No “bem” cabem todas as realidades e circunstâncias animadoras da vida, cabe o olhar descamado sobre o projeto complexo que é viver, com suas dores e prazeres, infernos e paraísos. Não se trata, tudo isso, de certa expectativa ingênua, mas de alertar-se constante para o bem e para a referência do amor, na direção de atos e pensamentos amorosos. Atos que são práticas de raciocínios, posicionamentos, ética e afetos em direção ao outro humano.
Esperar pelo amor parece vivenciar a sinistra expectativa da dúvida ou do atraso, numa colaboração angustiante com algo insuficiente. A chegada desse amor não é uma aparição formulada pelo desejo, mas ascende dos atos de existência. As ações vitais que elancam as crenças pessoais, áreas de atuação e territórios possíveis. De certa forma, o amor parece desmantelar nossos poderes interiores de auto-suficiência e indiferença ao conjunto do ser amado. É a élégance de saber olhar ao redor. Um estratagema para uma vida de coisas mais clandestinas, mais alegres, fora das concessões e condições que impedem o verdadeiro amar.