terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A Dama da América Latina


















Sob um poncho vermelho solta os braços,
lentamente, para abrir o estrondo da voz.

Mercedes Sosa em apresentações pelo Brasil, nesta seara dos confins de 2008 é algo para não se perder. Nunca. Tem que gostar da voz telúrica, enrouquecida e calorosa da musa de 73 anos.
O espírito da América Latina em vibratos profundos e cortantes. Por trás de sua aparição, a América Latina sujeito, experiente com a carga de quem já passou por marchas de sangue e glórias. Marchas de sangre de los etudiantes. Histórias que o Brasil conhece pouco, logo que, sempre se mantém longe e absorto em outros caos.


Aqui em Salvador, no Teatro Castro Alves, com uma platéia barulhenta - não há preparação para aquilo que ressoará como trovão – a apresentação litúrgica, sacra para o tambor de Mercedes, no ribombo do canto em catársico texto. Alegre é lúgubre.
O baiano fala muito, barulha demais, sem pretexto, exórdio, sem paz. Trajam, as mulheres, vestidos horríveis cheios de lantejoulas e se perfumam para o nada. O calor desgraçado do TCA sinaliza a necessidade do declínio que se aproxima. E em minha cabeça Mercedes começa a cantar. A espera também é nada. O peso é a comunidade baiana. Mas a Dama virá. Guiada por dois acólitos vem sentar-se em sua cadeira amplamente ovacionada depois de 15 anos sem vir a Bahia. Finalmente os soteropolitanos se calam. Senta serena e dá-nos as graças de estar em Salvador da Bahia. Abre o canto e depois de umas 2 canções larga Gracias a La Vida e a platéia acolhe saindo do sufoco de uma década e meia.Canta María Elena Walsh, Violeta Parra, Ariel Ramirez, Armando Tejada Gómez Y César Isella até recair numa das melhores coisas do cancioneiro brasileiro: Milton Nascimento mesmo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
Volver a Los 17 – Violeta Parra

Não sei o quanto cansativo é ler sobre Mercedes a partir do que sinto. Mas é chato universalizar minhas sensações e descrever de acordo com a possível transparência de todos.
Eu estive dentro de uma redoma naquele canto latino, na verdade sempre estou quando a ouço.
Não temos vozes femininas expressivas no Brasil e a maioria das cantoras, cantadeiras e cantrizes parecem desconhecer o que seja o ofício. A pulsação que dá a voz o conceito,
a metafísica. Entre grunhidos e solfejinhos afinados, ouvimos, em grande parte, sons de barzinhos em vozes resquícios bossanovistas e modismos “mais nada novo sob o sol”. Desculpem. Entre estas estão Adriana Maciel, Paula Toller, Adriana Calcanhoto, Zizi Possi, Rosa Passos e o clubinho musical de categoria bairrista baiano sem sal de Márcia Castro, Vânia Abreu, Mariene de Castro e sem número de iguais. Desculpem. E as vozes banda baile de Ivete, Cláudia Leite, Daniela Mercury - carretel de mulheres estandarte de pernões que só cantam porque tem pernas bonitas pois se tivessem cambitos iriam arejar na ninguendade. Tão diferentes das vozes universais e apoteóticas das nem tão bonitas Dulce Pontes, Maria João, Mercedes Sosa e Edith Piaf. Elis já morreu. Ao posto sobejam Maria Betânia e Mônica Salmaso. A filha da Elis é uma piada marqueteira. Todas vozes bonitinhas, mas cantoras?


O poncho rubro que reveste a Mercedes ressalta um armorial vivo e é preciso entender porque trata-se de uma Dama da América Latina. La Negra, como foi nomeada pelos argentinos, por conta dos cabelos negros e escorridos, é a expressão artística da abolição contra as tiranias que mancharam a América em meados do séc XX. Seu repertório é ideológico. Repugna o imperialismo norte-americano (não a cultura americana), consumismo e as diferenças sociais massacrantes. La Negra colocou em seus palcos os caminhos peronistas que aderiu durante toda a vida com canções imponentes que dizem aos governos para viver os interesses do povo, em que só existe uma classe de homem: os que trabalham. Seus braços são as forças sociais pela e para a sociedade e os únicos privilegiados são as crianças.


Meu ceticismo e radicalidade, exagerados, justificam-se pela penumbra contralto sustentada no tambor e força musical daquela Dama. Não tenho outra expectativa senão contradizer meu país e suas aberrações artísticas de auditório, onde trafegam parcas expressões viscerais. Paro por aqui. Nada mais é possível de ser dito pois meu texto ficou trancando. Deve ser pela decepção. Deixe-me ver o que tem para ver na cidade por esses dias. Não melhor não, melhor ficar aqui no meu canto, em minha casa pinicando ao violão Canción para Carito. Vai que dissolvo meu desgosto porquanto meu recanto vira uma fenda castelhana.

Andando solo
Bajo la llovizna gris
Fingiendo duro
Que tu vida fue de aqui
Por que cambiaste un mar de gente
Por donde gobierna la flor
Mira que el rio
Nunca regalo el color.
Canción para Carito





segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Dércio Marques. Menestrel das matas e das cidades.

Ouça a mata cantar. Pela garganta de um fauno cantador gritam os anseios mais densos que confundem os elos humanos, os desejos, as crenças espirituais. Há algo de um índio antigo em suas orquestrações. Ele é puro, desconhecido, inusitado. Nunca tímido, mas silencioso e pensador. Pensa ali suas harmonias e solfejos. Rico despoja tudo que tem para simplesmente nada ter, senão a viagem. A desarrumação, o caos e as malas prontas. Para ir, vir e devir.
Foto: Dércio Marques 1974

Dércio Marques é uma arqueologia de sensações musicais para além das notas enfadonhas. Existencialista: canta, de modo afetivo o homem em suas relações humanas e sociais, apropriando-se, de acordo com cada fase da sua história, dos tesouros que pirateia por aí. Vive envolvido numa performance errante na vida artística. Consumido na referência imediata de um estilo de vida inusitado, cigano para tantas cidades.

Suas cercanias artísticas foram constituídas por nomes célebres da música latino-americana, como Mercedes Sosa e Violeta Parra, e de muitos outros cantadores do Brasil e América Latina. Certo dia rompera com o Brasil face ao desgosto que aqui se encontrava com tanta bossa-nova e Iê-iê-iês. De certo que voltaria atravessado por ponchos e charangos. Quando voltou não se sabia direito e isso foi pelos idos de 1974 quando conheceu Elomar Figueira Mello. O canto vaqueiro, territorialista, nativo de Elomar o reconduziu a uma nova locanda. Para ele faltava esse telúrico pois a bossa se empunha como movimento para certa debilidade naquela época, pois era mais parecido como proposta das massas elitistas cariocas, paulistanas e baianas em acordo com o consumo imediato.

Dércio, eu vejo nele um menestrel, um trovador clássico – como eu sou também – aquele típico trovador que canta trovas, troveiro, rapsodo menestrel. Um músico de ponta, um ouvido fantástico, uma voz afinadíssima, um timbre belíssimo, uma postura de palco teatral, naturalmente teatral. Ele não faz força para fazer nada, tudo o que ele faz no palco é bonito, aquele jeitão dele, fazendo o que um grande artista faz, o mesmo que centra o espetáculo. Às vezes ele chega assim, completo, muito polivalente, músico. É costume ele andar por aí feito um cigano, e esquecendo os instrumentos no palco, tem dez instrumentos, larga um, pega outro, desafina uma corda, muda pra outra. Põe na afinação que quer, é um riachão, um cebolão, pega a viola de dez cordas, depois pega o violão de concerto, vai pro charango, um bandolim, depois bate no tambor e vai embora viajando, no concerto não pára. Elomar Figueira Mello

Meu convívio com Dércio data de meados do ano 2000. Desde essa data não entendi mais nada. E até hoje preciso parar delicadamente para assimilar aos poucos o que sua poesia e música pretendem nessa era de ansiedades. Seu ouvido musical apurado e sagrado explora uma música transcendente, mística. Em suas canções, ou nas que interpreta, fala de seres carnais, espirituais e das trocas afetivas entre os juntos ou desligados.

Meu amor adeus
Tem cuidado
Se a dor é um espinho
Que espeta sozinho
Do outro lado
Meu bem desvairado
Tão aflito
Se a dor é um dó
Que desfaz um nó
E desata um grito
Um mal olhado
Um mal pecado
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é primavera
É um fim de outono
Um tempo morno
É quase verão
Em pleno inverno
É um abandono
Por que não me vês, maresia
Se a dor é um ciúme
Que espalha perfume
E me agonia [...]
(MARQUES, 1999, CD 1, faixa 1)

“Por que não me vês” do compositor Fausto. Gravada por Dércio Marques no álbum duplo Cantigas de Abraçar.

Em outra face canta as desigualdades sociais e as angústias que acompanham o homem esmagado pelos poderes do mundo do trabalho e passeia através de um texto denso, coligido de poetas como Atahualpa Yupanqui, Elomar e José Maria Giroldo.

Dércio é um artesão musical: “constrói” cada som em função da necessidade artística do projeto. Muitas de suas obras musicais foram feitas artesanalmente, ao longo de vários anos, e uma se torna ontológica: “Segredos Vegetais”. É uma obra finíssima e cuidadosa composta durante doze anos e levou mais quatro para ser gravada. É uma composição musical criada com um acervo sonoro pluralizado com registros da natureza e uma diversidade de instrumentos musicais. Este trabalho é constituído, segundo Dércio, com o objetivo de formar um ambiente temático que sugerisse os “cânticos mais profundos da natureza” e repressentasse a aura das matas e suas entidades espirituais.

Enquanto nos exprememos entre sintonias dialógicas das rádios e i-pod de oitocentos mil gigas com quarenta e cinco milhões de músicas em mp3, é possível que uma só canção de Dércio não consiga ocupar de uma só vez o coração humano ao mesmo tempo que seja possível preencher todo o seu afeto. Caso resolva adentrar nessas canções não espere nada ecológico, pois a floresta dos sons de Dércio vai pensar que é você que precisa de cuidados e proteção ambiental. Comece espalhando os segredos: Segredos Vegetais.